“Sua chamada está sendo
encaminhada para caixa de mensagens e estará sujeita a cobrança após o
sinal...” Apertei o botão de desligar. Pela terceira vez. E imaginei o telefone
tocando em qualquer outro canto da cidade, onde alguém que não queria ouvir
minha voz o estaria encarando com impaciência. Talvez tivesse uma pergunta
semelhante à minha: o que aconteceu? E também uma resposta irritantemente
parecida: nada, apenas o fim.
Tentei novamente.
– Alô? – não era essa a voz que eu
esperava. Não que outra pessoa falasse. Apenas faltava-lhe o entusiasmo de
outros tempos. Como o som írrito de um silêncio tristonho, a voz era cansada.
Não cansada pelo dia, mas pela vida.
– Alô. Sou eu – coisa imbecil de se
dizer, mas era tudo o que eu tinha. Ensaiei minha vontade de perguntar o porquê
de não ter atendido antes, mas a pergunta morreu na garganta. E, quase ao mesmo
tempo, alguma coisa morreu no peito.
– Está tudo bem? – não que de fato
quisesse saber.
– Como deveria estar. E com você? –
essa distância entre duas almas, outrora tão próximas, era a prova de um
sentimento que se tornara outro: menor, pior, distante.
– Da mesma maneira. Nos vemos
amanhã? – novamente, a falta do entusiasmo esbofeteando-me a face.
– Talvez eu apareça, ainda não sei –
não que eu estivesse ocupada. Era o meu medo de ser forçada a olhar para
aqueles olhos metediços uma vez mais; e esta vez tornar-se a última.
– Estarei aqui – sem abraço, sem
beijo, sem saudade: mas esperando.
– Certo. Tchau – onde estava a
minha vontade de dizer “eu te amo”?
– Tchau – e onde estava a dele de
amar-me?
Desliguei o celular
corajosamente, com a certeza de que tinha algo mais para perguntar. E muitas, muitas outras coisas para dizer. Eu
queria saber expressar-me melhor com o meu silêncio. Mas nunca houve no mundo
alguém capaz de explicar-se e ser entendido.
Tão grande era a minha vontade
de ficar parada; e esperar o momento em que alguém chegaria esbanjando um
vocabulário peculiar qualquer, com sotaque diferente, e me dar um bom motivo
para sair e encarar a luz do sol, a cor do dia, o cheiro do mundo. Mas os meus
pés calejados extenuaram-se depois desse tempo todo caminhando por terras
áridas a procura de campos floridos. Meus olhos frustrados deixaram de ver a
saída dessa algazarra que é a realidade. Por um momento chego a até ser
alérgica a batalhas infundadas e duelos ilusórios com um eu que existe dentro de mim e eu desconheço.
Não sei quanto tempo demorei
pra decidir que a decisão da minha vida estava para ser tomada.
Saí por aí, dirigindo sem
rumo. Parei num bar aberto de madrugada; naquela hora em que as pessoas já
estão indo embora e as cadeiras estão começando a ser colocadas em cima das
mesas. Pedi uma dose e, com ela, engoli minha timidez. E me vi a procurar – no
fundo do copo e naquele balcão sujo de um bar ordinário de subúrbio –
exatamente aquilo que você me nega.
E um constante questionamento
teimava em atormentar-me: será que estou fazendo as escolhas certas pela pessoa
errada?